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Personalidades da Fotografia – Paul Strand, um Fotógrafo Total

24 Janeiro, 2024

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Tal como temos vindo a dizer, a fotografia é técnica, é prática, mas também é a sua história. Continuamos a dar-te a conhecer as grandes figuras da História da Fotografia para que todos possam “viajar” no tempo, acompanhando os génios fotográficos. E hoje é a vez de Paul Strand!

Paul Strand (1890-1976) foi um fotógrafo total que atravessou seis décadas de história das imagens. Fotografou de perto e de longe, objectos e pessoas, nas mais diversas paisagens. A sua obra apresenta um estilo frontal, não adornado, ainda que atento ao detalhe e politicamente engajado.

Paul Strand

Strand teve dois grandes mentores: Lewis Hine e Alfred Stieglitz. Duas figuras contrastantes que vão guiar, nas suas diferenças, a carreira de Strand. Hine foi um fotógrafo de estilo documental que virou a câmara para a dura realidade da imigração e, ao serviço da National Child Labor Committee, assinou um trabalho pungente sobre a exploração laboral das crianças nos Estados Unidos. Em 1907, na Ethic Culture School, Strand frequentou durante nove meses um curso de fotografia ministrado por Lewis Hine.

Hine apresentou o jovem Strand a Alfred Stieglitz em 1907. Quando Strand conheceu Stieglitz este já era uma das figuras mais influentes da fotografia norte-americana. Liderava a publicação Camera Work, tinha a sua organização de fotógrafos, a Photo-Secession, e a sua própria galeria, 291. Era o grande representante da fotografia pictural ou artística, conhecida pelas suas paisagens vaporosas e retratos espirituosos. Stieglitz também foi um cronista do seu tempo, tirando fotografias na rua de estilo mais directo. Contudo, a principal faceta do seu trabalho era pictural.

Hine e Stieglitz estavam em pólos opostos, mas os dois trouxeram o equilíbrio ou o desequilíbrio que governou a fotografia de Strand: uma relação entre consciência social e uma sensibilidade para as formas. Hine e Strieglitz guiaram Strand nessa bifurcação, que esteve presente ao longo da sua obra, entre arte e vida, entre sociedade e natureza, entre o que é justo e o que é belo.

Na edição número 48 da Camera Work, saída em 1917, Stieglitz apresentava ao mundo o trabalho do jovem fotógrafo Paul Strand, cuja visão fotográfica apontava para novas direcções. Escrevia Stieglitz: “O seu trabalho é brutalmente directo. Expurgado de toda a patranha; de truques e de qualquer ‘ismo’; de qualquer tentativa de enganar o público ignorante, incluindo os próprios fotógrafos.”

Nesse número, podia ler-se um texto de Strand simplesmente intitulado «Photography». Escreveu aí Strand que a fotografia tinha uma “inqualificável e absoluta objectividade. Ao contrário das outras artes que são anti-fotográficas, esta objectividade é a própria essência da fotografia, o seu contributo e ao mesmo tempo a sua limitação.”

De entre os trabalhos de Strand desta altura estavam algumas das suas fotografias mais marcantes: Wall Street de 1915, por um lado, e Blind Woman e Sandwich Man de 1916, por outro lado. Em Wall Street Strand rompeu com a escola pictural ao virar-se para uma das suas musas: Nova Iorque. Não que o tema fosse novo entre os fotógrafos do seu tempo – Steichen e Stieglitz retrataram em várias fotografias a ambiência da cidade. Mas com fotografias como Wall Street Strand despia as imagens da cidade desse encantamento romântico para formar um statement vibrante e moderno em que, como descreveu o pintor John Marin, “toda a cidade está viva; prédios, pessoas, tudo está vivo” (in Paul Strand: An American Vision, 1990).

Para chegar à vida, Strand vai usar uma câmara com uma objectiva falsa, por forma a apanhar os seus “modelos” desprevenidos, sem pose. Em Blind Woman (1916) nunca conseguimos dar como lida essa palavra: “B-L-I-N-D”. A fotografia puxa-nos para algo de mais profundo e denso, naquilo que pode ser a vida desta pessoa tal como foi apanhada naquele momento pela câmara. Contudo, não era o instante que interessava a Strand – como interessaria a Henri Cartier-Bresson, por exemplo – mas a convocação de algo mais profundo, longínquo, uma profundidade que levava a que o próprio falasse da exigência maior da arte de retratar. Outro exemplo dessa arte é Sandwich Man (1916) que, tal como Blind Woman, era “uma expressão directa do hoje” – frase de Stieglitz sobre estas fotografias. Strand fotografou pessoas comuns conferindo-lhes uma qualidade escultural. Elas ganham na imagem a qualidade de lápides, aparecendo como monumentais figuras que preenchem verticalmente o quadro e que confrontam com o olhar o nosso lugar de espectadores.

Em 1932, depois de terminar o relacionamento com a sua mulher, Rebecca, e de se esfriar a relação de amizade com Stieglitz, Strand mudou-se para o México. Aí Strand aprimorou a arte do retrato. Strand exaltará na sua fase mexicana a dignidade do índio americano. Alguns dos nativos mexicanos, observará, vivem como antes da chegada dos europeus à América. Como na sua fotografia de indigentes em Nova Iorque, Strand voltava a encontrar na imagem de gente comum a dimensão de um monumento à humanidade.

Strand mudou-se para França em 1950, mas a sua procura por temas mais felizes e pitorescos levaram-no até Itália, desta feita, até ao encontro do grande argumentista italiano Cesare Zavattini, o homem que escreveu as histórias de Umberto D. e O Ladrão de Bicicletas, ambos os filmes realizados por Vittorio De Sica. Publicado em 1955, o livro de fotografias Un Paese reúne fotografias de Strand tiradas na aldeia natal de Zavattini, Luzzara, situada no norte de Itália. Strand voltou a desenvolver a sua arte do retrato, procurando em cada rosto e em cada posição de corpo chegar, como dizia, ao “âmago da humanidade”. Ninguém o disse melhor que John Berger, em Understanding a Photograph: a sua fotografia tinha a capacidade para “convidar a narrativa e apresentar-se aos seus modelos de forma a que estes estivessem dispostos a dizer: Eu sou como me vês”.

Strand desapareceu em 1976, na sua casa no norte de França, numa altura em que dedicava boa parte do seu tempo a fotografar a vegetação que envolvia essa que foi a sua última morada no mundo dos vivos.

Luís Mendonça

Se gostas de te inspirar nos grandes fotógrafos da História da Fotografia ou simplesmente saber mais sobre aqueles que a marcaram, não percas os artigos do Blog IPF, não só sobre este, mas também sobre outros temas essenciais da arte de fotografar. E se perdeste o artigo sobre o fotógrafo Lartigue, podes lê-lo aqui.

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