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Personalidades da Fotografia – Lartigue, o Génio Precoce

06 Maio, 2024

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A fotografia é técnica, é criatividade, é prática. Mas também é o que vem de trás, a sua história. Conhecer as grandes figuras da História da Fotografia é algo que não deve ser deixado de lado. O IPF lança, assim, um conjunto de artigos sobre alguns nomes essenciais, de modo a que todos possam “viajar” no tempo, acompanhando os génios fotográficos. Eis o primeiro: Lartigue.

Jacques Henri Lartigue (1894-1986) terá sido um dos mais precoces génios da fotografia. Tudo começou quando o seu pai, que se parecia com “le Bon Dieu”, lembrava Lartigue nas suas memórias, lhe ofereceu uma “verdadeira câmera fotográfica”. Tinha ele apenas sete anos, mas já estava pronto para elevar o snapshot familiar a arte universal feita de riso e aventura. O fotógrafo Lartigue foi o mais prodigioso filho da geração Kodak, a primeira que fez do uso de câmeras facilmente portáteis oportunidade de registo cândido do dia-a-dia. Foi isto que Lartigue fez: fotografou, com avidez, momentos da sua vida familiar e amorosa, coligindo essas imagens ao longo de várias dezenas de álbuns. Ao mesmo tempo, foi alimentando, com a mesma minúcia, um diário no qual procurava relatar tudo o que fazia em cada dia.

A sua religião era a felicidade. “Fui posto nesta época. Tenho de aproveitar o máximo que posso. Todas as épocas podem ser felizes, todos os países são belos”, explica num documentário da BBC da série Master Photographers (1983). Esta felicidade será um dos grandes temas das suas primeiras imagens, transformando o ritual fotográfico num pretexto para as mais criativas brincadeiras entre amigos e familiares.

Lartigue foi escritor, pintor e fotógrafo. Quando interrogado sobre as diferenças entre estas duas últimas formas de expressão, respondeu: “A fotografia vem de fora, a pintura de dentro. (…) A fotografia é uma brincadeira ligeira, a pintura é uma brincadeira profunda.”

Ma nounou Dudu, 1904

Lartigue era uma criança que não queria crescer. Queria brincar – e estar de férias – para sempre, terna e ternamente. Nasceu no lar ideal, no seio de uma família abastada composta por inventores com um apurado sentido de aventura e muita joie de vivre. Era um amante da tecnologia, e dos efeitos da velocidade na imagem, mas também da moda. Tinha um especial olho para as roupas das mulheres que se passeavam nas avenidas mais requintadas de Paris. O olho de criança de Lartigue era atraído pela toillet das transeuntes, muito em particular, para os seus espampanantes chapéus. Verdadeiras construções de estilo que faziam sorrir o fotógrafo Lartigue e a sua câmera.

Avenue du Bois de Boulogne, 1911

Gostava de velocidade e de capturar o instante pela objectiva, transformando as leis da física num recreio para as imagens. Um dos efeitos mais recorrentes na sua obra era o da suspensão do movimento. Uma bola lançada ao ar aí permanece como que negando teimosamente o jogo, um gato atinge a imortalidade ao lançar-se para uma bola que ali fica congelada na atmosfera, um cão jogado ao riacho nunca lá chega, uma mulher salta de um muro ficando na imagem apenas a promessa de que irá aterrar – talvez um dia, para lá da eternidade. Numa fotografia célebre da História da Fotografia, Lartigue captura a insólita pose da sua prima Bichonade em pleno salto sobre um lanço de escadas. A sensação de acidente que se anuncia e se enuncia na imagem choca com a fácies alegre da modelo.

Bichonade, 1905

O interesse de Lartigue pela fotografia era concomitante ao generalizado fascínio das pessoas do seu tempo por inovações tecnológicas que vinham revolucionar os modos de vida. “Jacques Lartigue veio ao mundo quando a tecnologia começou a rir do espaço e do tempo”, assinalou Vicki Goldberg (in Jacques Henri Lartigue, Photographer). Fotografou os primeiros aviões, as viagens bem sucedidas e, claro, as quedas, e era um dos espectadores mais entusiastas das corridas com carros de alta velocidade. Fotografava os veículos muito de perto – a menos de um metro – e com a câmera imóvel colocada rigorosamente na vertical. A velocidade dos automóveis produzia uma distorção na imagem que conduzia a sensação de movimento muito para lá do quadro.

Grand Prix De L’A. C. F., Automobile Delage, 1912

O fotógrafo Lartigue não tinha pressa em crescer. Em parte percebe-se porquê. Olhando para a evolução da sua obra nota-se uma certa tendência para a introspecção e até alguma melancolia. Uma das imagens mais expressivas do seu período de adulto foi tirada em 1927 na cidade de Biarritz, onde costumava passar férias com a sua primeira mulher, Bibi Messager. Na fotografia Lartigue parece expressar o desencantamento (em ser) adulto quando mostra um homem de costas observando os efeitos da onda que embate, com violência, numa arriba. É uma evocação directa do quadro de Caspar David Friedrich, Der Wanderer über dem Nebelmeer/Wanderer Above the Sea of Fog (1818), obra-prima do romantismo alemão que sugere o sentimento contraditório de domínio sobre e subjugação à Natureza. O homem é pequeno ante a violência do mundo. Lartigue foi contemporâneo das duas Grandes Guerras. Este homem que não queria crescer foi testemunha das maiores proezas mas também dos mais inomináveis crimes contra a humanidade. Dizia, contudo, que não era do seu interesse documentar os acontecimentos trágicos: “não gosto de preservar o que é desagradável, o que me faz sofrer” (in Master Photographers, 1983).

Sala au rocher de la vierge Biarritz, 1927

Luís Mendonça