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Os fotógrafos não vendem fotografias

28 Julho, 2026

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Ainda há tempo para proteger os fotógrafos. Mas de quê?

No fim de semana de 11 e 12 de julho de 2026, o jornal francês Libération publicou uma reflexão do CLAP (Comité de liaison et d’action pour la photographie et les arts visuels) sob o título “Il est encore temps de protéger les photographes”*.

O texto alerta para a deterioração das condições económicas da profissão, associando essa realidade à digitalização, à pressão sobre os preços das imagens e, mais recentemente, ao impacto da inteligência artificial generativa.

Esta análise merece atenção. Mas talvez não pelas razões mais evidentes, pelo menos não na perspetiva mais otimista que aqui vou partilhar em mais três intervenções.

Uma das grandes virtudes do artigo é reconhecer que a crise da fotografia não começou com a inteligência artificial.
De facto, a fotografia digital, os smartphones, as redes sociais e a democratização dos meios de produção de imagem alteraram profundamente o mercado ao longo das últimas duas décadas. A IA surge como mais uma etapa dessa transformação, mas não é a sua origem.


A reflexão torna-se particularmente interessante quando colocamos uma questão anterior à proteção dos fotógrafos: o que é que os fotógrafos protegem quando exercem a sua profissão?

A resposta mais imediata poderá ser “produzem fotografias”. Mas essa resposta é, hoje, insuficiente.

Se a produção de imagens se tornou tecnologicamente acessível a um número crescente de pessoas e sistemas, então o valor da fotografia profissional, dificilmente pode ser explicado apenas pela capacidade de produzir imagens. O valor terá necessariamente de residir em algo mais profundo.

Do ponto de vista jurídico, esta questão é particularmente relevante. O direito de autor nunca existiu para proteger a mera execução de uma tarefa. Existe porque o ordenamento jurídico reconhece valor numa criação intelectual.

O que se protege não é o esforço em si mesmo, mas o contributo criativo que acrescenta algo ao património cultural, artístico ou informacional da comunidade.

Talvez a fotografia enfrente hoje o mesmo desafio. Não o desafio de justificar a sua existência, mas o de explicar o valor que cria.

Uma fotografia jornalística não vale apenas porque existe um ficheiro digital. Vale porque alguém esteve presente, observou, escolheu, documentou e testemunhou.

Um retrato não vale apenas pela qualidade técnica. Vale pela relação humana que permitiu aquele momento.
Um projeto documental não vale apenas pelas imagens que apresenta. Vale pelo contexto, pelo significado e pela memória que preserva.

À medida que as imagens se tornam abundantes, outras dimensões tornam-se escassas.

A autenticidade.
A confiança.
O contexto.
A interpretação.
A memória.


E a escassez continua a ser um dos principais motores de valor. Por isso, talvez a discussão sobre o futuro da fotografia não deva começar por perguntar como proteger os fotógrafos da inteligência artificial. Talvez deva começar por perguntar que valor humano continua a ser criado através da fotografia numa era de abundância visual?


Responder a essa pergunta não é apenas uma questão económica. É também uma questão jurídica, porque o futuro da fotografia dependerá, cada vez mais, da capacidade de demonstrar o valor daquilo que continua a ser genuinamente humano.

O que é que os fotógrafos realmente vendem numa época de abundância visual?

Até aqui, procurei deslocar o foco do debate. Em vez de perguntar como proteger a profissão, propus uma questão prévia: que valor continua a ser criado pela fotografia numa época em que a produção de imagens deixou de ser uma atividade escassa?

Essa reflexão conduz-nos inevitavelmente a uma conclusão desconfortável para muitos profissionais da área: os fotógrafos nunca venderam verdadeiramente fotografias. Ou, pelo menos, nunca venderam apenas fotografias.


Durante décadas, foi relativamente fácil confundir o suporte com o valor. A fotografia era um bem tecnicamente difícil de produzir. Exigia equipamento caro, conhecimento especializado, acesso a processos complexos e canais de divulgação relativamente limitados. O mercado remunerava a fotografia e parecia natural assumir que o objeto transacionado era a própria imagem.

Contudo, quando observamos atentamente as diferentes áreas da fotografia, percebemos rapidamente que a fotografia é apenas a manifestação visível de algo mais profundo.

O fotojornalista não vende um ficheiro digital. Vende a possibilidade de testemunhar um acontecimento através dos olhos de alguém que esteve presente. O valor não reside apenas na imagem obtida, mas na presença física, na capacidade de observação e na escolha do momento que foi registado.


O fotógrafo documental não vende apenas fotografias. Vende contexto. Vende a capacidade de transformar fragmentos dispersos da realidade numa narrativa coerente que permita compreender um fenómeno, uma comunidade ou um determinado período histórico.

O fotógrafo de retrato raramente é contratado apenas pela sua capacidade técnica. Aquilo que o cliente procura é uma determinada representação de si próprio. O resultado depende frequentemente de fatores que nenhuma tecnologia consegue reproduzir autonomamente: empatia, comunicação, confiança e sensibilidade relacional.

Da mesma forma, um fotógrafo de família não vende apenas imagens. O que está verdadeiramente em causa é a preservação de memória. As fotografias são apenas o veículo através do qual essa memória se torna acessível às gerações futuras.

Esta distinção torna-se particularmente relevante num momento histórico em que a produção de imagens se tornou praticamente ilimitada.

A inteligência artificial veio acelerar uma tendência que já estava em curso. Hoje é possível gerar imagens convincentes em segundos. Amanhã será possível fazê-lo ainda melhor, mais rápido e a um custo ainda mais reduzido. A capacidade de produzir imagens deixou de ser um fator diferenciador suficientemente forte para sustentar, por si só, uma atividade económica.

Mas isso não significa que o valor desapareceu. Significa apenas que o valor mudou de lugar.

Em economia, quando algo se torna abundante, a escassez desloca-se. E é a escassez que continua a determinar o valor.

As imagens tornaram-se abundantes. A confiança não.
As imagens tornaram-se abundantes. O contexto não.
As imagens tornaram-se abundantes. A interpretação não.
As imagens tornaram-se abundantes. A memória não.
As imagens tornaram-se abundantes. A experiência humana não.

É precisamente aqui que a fotografia continua a encontrar o seu espaço económico e social. Do ponto de vista jurídico, esta conclusão é igualmente importante. O direito de autor não protege a mera produção de conteúdo. Protege aquilo que resulta de uma escolha intelectual, criativa e individualizada. Por outras palavras, protege a expressão humana que se manifesta através da obra. Numa época de abundância visual, esta ideia adquire uma relevância renovada.


O verdadeiro ativo do fotógrafo não é a capacidade de operar uma câmara.
Essa competência continua a ser importante, mas deixou de constituir o principal fator de diferenciação.

Aquilo que diferencia um fotógrafo é a sua capacidade de atribuir significado. É saber onde olhar quando existem demasiadas imagens e saber o que excluir quando tudo parece merecer atenção. Saber construir uma narrativa quando a informação surge fragmentada e criar confiança quando a autenticidade se torna cada vez mais difícil de verificar. Saber também preservar memória quando tudo parece destinado ao esquecimento.


Talvez por isso a discussão sobre o futuro da fotografia esteja, muitas vezes, centrada no lugar errado. A questão não é saber se as máquinas conseguem produzir imagens, mas saber quem continua a criar valor através delas.

E essa continua a ser, acima de tudo, uma questão humana.

Porque as fotografias podem ser infinitas.
O significado não.

A IA não destrói o valor humano. Obriga-nos a defini-lo.

A discussão sobre fotografia está a ser travada no sítio errado. A inteligência artificial tornou-se o tema dominante em praticamente todas as discussões sobre o futuro da fotografia. Em conferências, redes sociais, grupos profissionais e meios de comunicação, a questão surge repetidamente: a IA vai substituir os fotógrafos?


A pergunta é compreensível. Mas talvez seja também um dos principais obstáculos a uma reflexão útil sobre o momento que a profissão atravessa. A história das tecnologias mostra que as profissões raramente desaparecem por causa de uma ferramenta. Transformam-se porque a proposta de valor que justificava a sua existência deixa de ser suficientemente clara.


É precisamente isso que, quanto a mim, está a acontecer na fotografia. A inteligência artificial não está a destruir o valor humano. Está a fazer algo mais exigente: está a obrigar-nos a defini-lo.


Durante muito tempo, essa necessidade não existiu. O domínio técnico funcionava como uma espécie de prova implícita de valor. Quem dominava a luz, a exposição, a composição, o equipamento e os processos de edição possuía uma competência difícil de replicar. O mercado reconhecia essa dificuldade e remunerava-a.


Hoje, porém, a técnica deixou de ser uma fronteira suficientemente clara. Não porque tenha deixado de ser importante, nem porque tenha deixado de exigir estudo ou experiência. Apenas deixou de ser exclusiva.

A consequência é particularmente relevante para os fotógrafos. Pela primeira vez em larga escala, a sociedade é confrontada com uma pergunta que durante décadas permaneceu escondida sob a complexidade técnica: porque é que esta fotografia tem valor?

A resposta não pode ser “porque foi difícil de fazer”.
Também não pode ser “porque exige equipamento caro”.
Nem sequer pode ser “porque uma máquina não a consegue produzir”.
A evolução tecnológica encarregar-se-á sempre de desafiar essas justificações.

As respostas duradouras encontram-se noutra dimensão.


Uma fotografia tem valor quando acrescenta conhecimento; quando preserva memória; quando cria compreensão; quando documenta a realidade; quando estabelece uma relação entre pessoas. Tem valor quando atribui significado a algo que, sem ela, permaneceria invisível.


Nenhuma destas características depende exclusivamente da tecnologia utilizada.
Dependem da ação humana.


É precisamente por esta razão que entendo que a discussão sobre fotografia está frequentemente a ser travada no sítio errado.
Debatem-se ferramentas, plataformas, modelos de inteligência artificial e limitações técnicas.
Tudo isso é importante.

Mas nenhuma dessas questões responde à pergunta essencial:

O que é que a fotografia acrescenta ao mundo?


A resposta a esta questão tem consequências que vão muito além da atividade profissional.
Tem consequências económicas, culturais e até jurídicas.


O direito de autor dá aqui um contributo interessante. A proteção jurídica não existe porque alguém utilizou uma câmara ou um software. Existe porque o ordenamento jurídico reconhece a presença de uma contribuição criativa humana suficientemente relevante para justificar proteção.

O fundamento não está na ferramenta, mas no valor criado. E quanto mais as ferramentas evoluem, mais visível se torna esta realidade.


Durante décadas, a escassez estava na produção. Hoje, a escassez está na interpretação.
Em vez de obter a imagem, agora a escassez está na confiança que a própria imagem merece.
A escassez também já esteve na capacidade técnica. Porém, hoje está cada vez mais na capacidade de atribuir significado.


É por isso que a inteligência artificial não deve ser encarada apenas como uma ameaça. Paradoxalmente, pode representar uma oportunidade de clarificação.

Ao tornar as imagens abundantes, obriga fotógrafos, clientes, instituições e mercados a identificar aquilo que continua verdadeiramente raro: a presença humana, a experiência, o julgamento, a autoria, a responsabilidade, a confiança, a memória., o contexto, o significado.

Todos estes fatores já tinham valor antes da inteligência artificial. A diferença é que agora se tornaram mais visíveis.

Talvez o futuro da fotografia não dependa de provar que as máquinas não conseguem criar imagens, mas sim de mostrar que o valor da fotografia nunca esteve apenas nas imagens. E que o elemento humano não se define por aquilo que uma máquina ainda não consegue fazer. Define-se pelo que continua a ter significado quando as máquinas já conseguem fazer quase tudo.

O significado continua a ser humano.

A fotografia vale mais do que a imagem que produz


Nos pontos anteriores procurei defender duas ideias que, à primeira vista, podem parecer provocatórias.

A primeira é que os fotógrafos não vendem fotografias. Vendem algo mais profundo: conhecimento, memória, contexto, relação, confiança ou identidade.

A segunda é que a inteligência artificial não destrói o valor humano. Obriga-nos, isso sim, a explicar com maior clareza onde esse valor se encontra. Resta agora uma pergunta.

Se o valor da fotografia não está apenas na imagem, e se a tecnologia é cada vez mais capaz de produzir imagens de elevada qualidade, então qual é o verdadeiro contributo humano da fotografia?

A resposta pode ser mais simples do que parece.
Os fotógrafos criam significado e esta ideia merece alguma reflexão.

Vivemos numa época em que as imagens se multiplicam a uma velocidade sem precedentes. Nunca houve tantas fotografias, tantos vídeos, tantas representações visuais a circular diariamente. A inteligência artificial veio acelerar ainda mais esse fenómeno, tornando possível gerar em segundos imagens que antes exigiam horas de trabalho ou simplesmente não existiam.

Mas existe uma diferença fundamental entre gerar uma imagem e atribuir-lhe significado.


Uma imagem, por si só, não diz ao observador porque merece atenção.
Uma fotografia adquire significado quando alguém toma uma decisão.
Quando alguém escolhe olhar para uma determinada realidade.
Quando alguém decide enquadrar um acontecimento.
Quando alguém escolhe o momento.
Quando alguém afirma, de forma explícita ou implícita “isto importa”.

É neste ponto que a fotografia deixa de ser apenas um produto tecnológico para se tornar um ato cultural. O fotógrafo não se limita a reproduzir o mundo…

Seleciona-o.
Interpreta-o.
Hierarquiza-o.
Atribui-lhe relevância.


Esta função é profundamente humana.


Num protesto, milhares de acontecimentos podem ocorrer simultaneamente. O fotógrafo escolhe aquele que representa melhor uma ideia, uma tensão ou uma realidade.
Num retrato, milhares de expressões e gestos são possíveis. O fotógrafo procura aquele que considera revelador.
Num projeto documental, o fotógrafo enfrenta uma realidade complexa e decide que história merece ser contada.


Em todos estes casos, o elemento distintivo não é a câmara. Também não é o software. E muito menos o número de megapixéis.
É o julgamento humano.


Talvez seja precisamente por isso que o debate sobre a inteligência artificial é tantas vezes colocado nos termos errados.
A questão não é saber se uma máquina consegue criar imagens. Consegue. E será cada vez melhor a fazê-lo!

A questão relevante é outra:
Quem decide o que merece ser visto?
Quem decide o que merece ser recordado?
Quem decide o que merece ser preservado?
Quem decide o que merece ter significado?


Estas perguntas não são técnicas. São culturais, sociais e…humanas.


Existe também aqui uma dimensão jurídica que importa não ignorar. O direito de autor não protege todas as imagens indistintamente. O que o sistema jurídico procura proteger é precisamente a intervenção criativa do autor. A seleção, a escolha, a composição, a individualidade da expressão.

Por outras palavras, protege uma determinada forma de atribuir significado ao mundo. O fundamento da proteção não está na existência de um ficheiro digital. Está na contribuição intelectual que lhe deu origem.

Sob este prisma, a inteligência artificial não elimina o papel do fotógrafo. Pelo contrário, torna-o mais visível.


Quanto mais abundantes se tornam as imagens, mais importante se torna compreender quem lhes atribui relevância.
Quanto mais fácil se torna criar conteúdo, mais valioso se torna o discernimento.
Quanto mais informação existe, mais rara se torna a capacidade de identificar aquilo que realmente importa.
Talvez seja essa a grande transformação que a fotografia enfrenta.


Durante décadas, grande parte do valor estava associada à capacidade de produzir imagens.
Hoje, o valor desloca-se progressivamente para a capacidade de produzir significado.
E o significado continua a ser um dos ativos mais humanos que conhecemos.

Num mundo onde qualquer pessoa pode gerar imagens, a verdadeira diferenciação poderá residir em algo muito mais antigo do que a tecnologia:

A capacidade de olhar para o mundo e dizer “Isto merece ser visto.”

Mário Serra Pereira, jurista, formador do ipF, autor (www.almedina.net/autor/mario-serra-pereira-1740139740)



*Libération, “Il est encore temps de protéger les photographes”, suplemento Le Libé des
Photographes, 11-12 de julho de 2026.

Evento Black Friday ipF 2025

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